aquele que sabe e aquele que vê

Este post está baseado no livro “A História da Arte” (Ernst Gombrich).

O Egito é o berço da criação dos mais antigos estilos de arte do passado que perduraram quase intocáveis por milhas de anos. A Grécia é o palco do fundamento cultural das artes, dos esportes, da filosofia e da ciência e que não poderia ficar de fora da maior revolução da historia da arte. Não se sabe exatamente quando e onde essa mudança se originou, mas sabemos que ela representa na historia uma mudança artística de pensamento, olhar e expressão. Atenas foi o lugar que produziu esses frutos e por isso tem enorme importância para a historia da arte. Neste ponto os gregos não seguiram mais a uma formula vinda de seus antepassados, mas estavam dispostos a desenvolver sua própria forma perfeita de criação.

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Desenho egípcio: retrato de Hesire esculpido em uma porta de túmulo em madeira trabalhada. Cerca de 2700 a.C. Cairo. Fonte: extraído do livro “A Historia da Arte” (Ernst Gombrich).

Identificar uma pintura ou escultura Egípcia não é difícil não é mesmo? Parece que tudo o que eles representavam seguia sempre um traçado firme, claro e definido, parecendo até meio “engessado”. Cabeças em perfil, olhos como se fossem vistos de frente, tronco completamente em plano frontal fazendo a questão de representar cada junta dos braços e ombros, e como se o quadril não fizesse parte desse mesmo corpo, as pernas e os pés eram torcidos e postos em plano lateral – parecia até que o individuo possuía dois pés esquerdos! Os egípcios acreditavam que deviam sempre representar completamente uma figura como ela é do que o fazer de forma natural e mais fiel possível ao que acontece na vida real. Por isso que para eles era mais importante traçar os pés de forma clara do que deixar o pobre indivíduo com seus dois pés esquerdos. Você nunca verá uma arte egípcia feita de outra forma, pois eles aprenderam com seus pais, que aprenderam com seus avôs, que ouviram de suas bisavós o que seus tataravôs disseram sobre como se deve fazer. Faziam o que sabiam.

As esculturas – e até as pirâmides – são identificadas com esse mesmo desenho egípcio. Não julgo os egípcios por seu estilo, acredito que o conceito da utilidade ainda era a única razão que estimulavam sua arte, por isso o importante mesmo era criar suas obras para que atendesse somente a necessidade. Por exemplo, naquela época as pinturas eram para passar uma mensagem, contar uma historia ou manterem a forma e a alma dos faraós vivos dentro das pirâmides – não para serem admiradas! Os gregos herdaram a arte egípcia mas não se limitaram a ela. Além daquilo que aprenderam dentro da escola egípcia, os gregos inventaram sua própria forma de ver e expressar a arte. Foi ai que pela primeira vez na historia, os pés esquerdos foram finalmente “consertados”, pois os gregos levaram sua arte a outro nível quando notaram que havia um ângulo por parte de seu observador que também devia ser considerado – surgindo então o escorço. Tudo que não podia ser exposto pelo ângulo poderia muito bem ser subentendido, era tudo uma questão perspectiva.

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Vaso grego assinado por Eutímides. A despedida do guerreiro. Cerca de 500 a.C. Detalhe para um dos pés visto de frente. Fonte: extraído do livro “A Historia da Arte” (Ernst Gombrich).

O novo estilo grego não foi nada fácil de ser desenvolvido. Os escultores gregos empenharam-se dia após dia para descobrir qual a forma mais perfeita de representar uma boca, uma parte do corpo, e esse processo foi gradativamente sendo descoberto ao longo dos anos com a contribuição de vários escultores. Frente às falhas eles não desanimaram – mesmo tendo o estilo egípcio como forma mais segura e consagrada –, suas descobertas e experiências eram como incentivo para trabalharem em prol do que os instigavam. Em VI a.C a influencia da arte egípcia nas pinturas gregas não havia se perdido completamente, mas foi agregada às novas descobertas, o que iniciou um caminho sem volta para a contínua evolução da arte. Aquilo que antes aprenderam com os egípcios não era mais sagrado, mas sim a base para suas criações. Não estavam ainda prontos para representarem fielmente a natureza, mas libertaram-se para aquilo que seus olhos podiam ver. Criavam o que viam.